sexta-feira, setembro 30, 2005

CORACAO INDEPENDENTE
EU NAO TE ACOMPANHO MAIS

Faz hoje anos que morreu a minha avo Benvinda. Escrevi esta historia num dia em que tive muitas saudades dela.


Eu dormia numa caminha de grades ao lado da cama dos meus avos,a minha avo segurava a minha mao no escuro ate eu adormecer. Lembro-me tambem de a ouvir cantar a noite, mas nao tenho a certeza que essa recordacao seja verdadeira.
A minha avo era uma mulher pequena e magrinha, tuberculizou quando era nova e por causa disso sofreu de falta de ar a vida toda. Talvez porque ela soubesse tao bem o que era ser pequeno e vulneravel, quando saimos a rua apertava a minha mao com muita forca para que nao me perdesse. Nas fotografias da altura eu olho para a camara de frente e sorrio; se calhar porque sei que a minha avo nao vai largar a minha mao nem de noite nem de dia, se calhar porque estou a espera de ver sair o passarinho.
Os meus avos tinham um canario amarelo que so cantava quando o sol batia na gaiola. Um dia o canario morreu e a minha avo explicou-me que o coracao dos canarios e muito fraquinho, que as vezes para morrerm basta um susto ou sentirem-se tristes.
O meus avos compravam o Comercio do Porto a meias, quando o meu avo acabava de o ler eu levava-o ao vizinho de cima. O sr Assuncao falava pouco e muito baixinho, passava as tardes num terraco envidracado a apanhar sol e a recortar noticias do jornal para colar num album. Morreu numa terca-feira por volta da hora do almoco enquanto lia O Comercio. A minha avo contou-me que ele tinha uma angina de peito, e eu fiquei a cismar se ele teria morrido de susto, por estar triste, ou se por causa de alguma fraqueza de coracao.
Depois foi a vez do meu avo e passado uma ano a minha avo teve um enfarte enquanto enfeitava a campa dele com um ramo de crisantemos brancos. O guarda do cemiterio de Agremonte disse-me que ela morreu como um passarinho, e eu acredito nele porque os canarios morrem de tristeza.
O primeiro rapaz por quem me apaixonei nasceu com um sopro no coracao e nenhum medico deu fe. Morreu durante uma partida de hoquei em patins,o Sport estava a ganhar por 21 a 19 ao Nau Vitoria do Monte Aventino e o Manel jogava a defesa lateral esquerdo.
Morrer nao deve ser triste de todo se voltar a encontrar os meus avos, o sr Assuncao e o meu primeiro namorado. Tambem gostava de voltar a ver o canario, mas isso e capaz de ser pedir muito.

9 Comments:

At 6:49 da manhã, Blogger Patrícia said...

Gosto da Aurelia, e gosto deste post em particular!
Gosto do fado que da nome ao post!
E tambem gostava de acreditar que quando morrer vou encontrar os meus coracoes perdidos...mas nao acredito...por isso guardo fervorosamente recordacoes, tal como tu!

 
At 9:40 da tarde, Blogger teresa said...

pedir não custa.
se é para cair, que seja bem lá de cima. acho que ainda encontras o teu canário.

 
At 10:50 da tarde, Blogger Joana said...

Ola Teresa e Patricia
Esta historia tem muito de auto-biografico, mas e uma historia.
Gostei muito de vos ver por aqui, visitas da Australia e de "bloguista" cuja fama ja atingiu o Brasil sao sempre um acontecimento ;-)

 
At 10:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Que post tão, tão bonito.

A minha avó tb tinha um canário amarelo. Morreu de tristeza. A minha avó foi ter com ele muitos anos depois... E eu tenho saudades dos dois, e das boas recordações que tenho da minha infância!

sara cacao

ps. a linkagem é sempre permitida! :)

 
At 7:47 da tarde, Blogger teresa said...

as melhores histórias são aquelas em que se acredita... mesmo que se saiba a diferença entre a relaidade e a ficção. (a este respeito, ver Marías, J., "Negras Costas do tempo" - que talvez te desse outra perspectiva do "Todas as Almas"...)

 
At 9:21 da manhã, Blogger PA said...

Os 'canários amarelos' vivem sempre no nosso coração.
É claro que os vamos encontrar todos novamente, amiga.
:) PA

 
At 5:07 da tarde, Blogger SweetSerenity said...

"O guarda do cemiterio de Agremonte disse-me que ela morreu como um passarinho, e eu acredito nele porque os canarios morrem de tristeza."
Todo o texto é de uma grande ternura, mas gostei especialmente desta frase porque acho que retrata bem a inocência e/ou a magia infantil; é bastante terna e bonita :)
Tem uma mensagem muito boa o texto. A morte existe, não se pode evitar, o que podemos fazer é aceitá-la e conviver o melhor possível com isso; e cada um vai buscar a sua crença ou esperança ao sítio que mais lhe apraz.
Em relação ao canário amarelo, achei engraçado porque também já tive um e chorei bastante quando morreu. Era bem novinha quando o tive, mas nunca me esqueci dele. Contudo, o meu morreu durante um fim-de-semana depois de ter partido as patinhas :/
Concluindo, gostei bastante do texto e estou a gostar muito de ler o Blog :)

Beijinho*

 
At 6:54 da tarde, Blogger neptumância said...

:)

 
At 6:57 da tarde, Blogger neptumância said...

oiço melhor do que falo
leio melhor do que escrevo

:)

 

Enviar um comentário

<< Home